segunda-feira, 1 de junho de 2009

Metáfora

O aquário é mesmo o reflexo da minha vida. Até as pragas morreram.

Não fossem os poliquetas, e uma única estrela do mar manca, não sei o que seria de mim.

quinta-feira, 21 de maio de 2009

A escola e a vida

Eu esperava por um exame de sangue no laboratório. Ao meu lado estavam Tainá, sua mãe e o namorado da mãe. O atendente leva o namorado para a sala de exames e Tainá começa:

- Mãe, quero ir com ele.
- Não pode, Tainá. Ele foi fazer uma radiografia, tem que entrar sozinho.
- Mas, mãe, eu quero ir com ele.
- O médico não deixa, é perigoso. Ele já vem.
- Mas, mãe, eu quero muito ir com ele.

A mãe se viu em um beco sem saída. Tainá não fazia escândalo, mas a mãe olhava para os outros constrangida. Pensou um pouco, mas a menina insistia, queria mesmo acompanhar o rapaz, então a mãe disse:

-Tainá, na vida nem tudo o que a gente quer, a gente pode ter.

Eu fiquei com pena da garota. Seus seis ou sete anos não mereciam tanta sinceridade. Papai noel, coelho da páscoa, um mundo justo, são coisas que devem fazer parte da nossa infância. Aquela mãe apelou para a realidade. Mas Tainá, no auge de sua sabedoria, respondeu para a mãe:

- Não, mãe, na vida tudo o que a gente quer a gente tem. E eu quero ir com ele.

Vi o desespero tomar os olhos da mãe. Agora, seu constragimento se transformara em pânico e olhava para os outros implorando ajuda. Fez mas uma tentativa.

- Tainá, na escola, você faz tudo o que quer?
- Não - e parecia nem ligar para a pergunta da mãe.
- Então? - respondeu a mãe certa de sua vitória. Na vida a gente nem sempre consegue o que quer, mas ela tinha conseguido naquele momento.

- Mas mãe, a escola não é a vida, a escola é só um lugar.

Ai, que saudades dos meus sete anos!

segunda-feira, 11 de maio de 2009

Miopia

Sou mais Saramago que Guimarães. Acho que vemos o suficiente. Nem demais, nem de menos. Assim, respeito minha miopia.

Entrei na ótica com minhas melhores armas. E encontrei um vendedor que estava disposto a lutar. Passaram-se 15 minutos com ele subindo e descendo a escada, confiante, impassível. E eu continuava: não, não, hum... Não!

Senti ele suspirar e achei que desistira. A miopia vencera. Mas ele trouxe uma última caixa. E começou:
- Não, esses te deixam abatida.

Mais um:
- Hum, você ficou estrábica!

E outro:
- Nariguda...

E então:
- Nossa! Esses te deixam... ...Linda!

Sai da loja um pouco mais Miguilim...

terça-feira, 21 de abril de 2009

Pelas nossas esquinas

Outro dia, voltando de umas cervejas com a Lu. Cada vez mais paranóica com a violência da cidade: vidros fechados, pé no acelerador...

- Não tenho nada...
- Mas abre o vidro um pouquinho? Só para conversar. - conversar, conversar...

Geralmente eu não abriria, mas sei lá, ando meio emotiva ultimamente... Abri. Antes que eu terminasse a fresta de 3 cm já pensava: "se esse cara me assaltar, eu vou me sentir a pessoa mais estúpida do planeta". Não foi nada disso.

- Olha moça, como as pessoas são mal educadas por aqui, não? Ninguem respeita mais ninguém.

Sorri. Amarelo. Na dúvida se fazia parte "daquelas pessoas por ali". Fazia, não?

- Então, sou soropositivo, não tenho emprego... Bla, bla, bla... uma moeda?

Achei um troco que estava no console do carro. Entreguei. E ele me deu um folheto de divulgação das atividades do Sesc. Agradeci, obrigada.

- E você tá achando que eu vou fazer a linha pedinte?! Pedinte , não! Divulgador cultural!!! Leve esse folheto.

Agradeci mais uma vez.

segunda-feira, 13 de abril de 2009

Maldita terra da garoa

Não quero mais morar em São Paulo. Agora mesmo fui ao banco. Quando saí de casa caia aquela chuvinha fina, que não incomoda, e é até agradável...

Mas, paulistana que sou, sai de casa correndo. Correndo para ir ao banco, tarefa que eu detesto e que me deixa aflita por antecipação. Tenho fobia das possibilidades de violência que essa cidade oferece.

Fujo do banco sempre que posso. E hoje, mais uma vez, saí de casa correndo. Quase não notei a presença do cego. Mas ele me percebeu.

- Me ajuda a atravessar a rua?

Parei, éramos eu e ele na calçada. Só podia estar falando comigo. Gelei. todos os noticiários da TV passaram na minha cabeça. É isso que acontece quando você tem fobia de alguma coisa: não pensa direito. E eu pensei na TV. E antes que esboçasse qualquer reação o cego já tinha grudado no meu braço.

- Me ajuda a atravessar a rua?

Pensei em dizer que ainda estávamos no meio do quarteirão, que ele não precisava segurar no meu braço com tanta força. Mas já era tarde. E na minha cabeça começava. Assalto. Batedor de carteira. E o cego andava.

- Você mora por aqui?

PCC. Sequestro relâmpago.

- Mora em prédio, é? Tem bastante prédio nessa região...

Roubo de órgãos. Estupro. Por que eu não conseguia mentir para ele? Ele continuava com as perguntas. E a esquina não chegava nunca. Chegou. Atravessamos.

- Para onde o senhor vai?
- Para a Cardoso. E você?
- Para a Turiassu. - menti. Não conseguiria dizer que ia ao banco.

Ele agradeceu, mas ameaçou subir a rua ao meu lado.

- Não, a Cardoso é para lá.

E foi assim que eu o deixei. Abandonei o cego no meio da chuva porque tive medo dele.

Quando era ele que devia ter medo de mim.

quinta-feira, 26 de março de 2009

Tanto azar é sorte

Eu tenho tanto azar, mas tanto azar que vira sorte. Explico.

Eu tenho um carro, já velhinho. E meu carro é como gente: guarda as cicatrizes da vida. E a vida andava difícil para ele, ou seja as cicatrizes eram muitas. Sim, esse é um eufemismo para descrever meu carro "batidinho". Os que já viram, sabem. Os quatro cantos amassados. Não muito amassado, mas o suficiente para não caber no meu orçamento mandar arrumá-lo.

E então ele começou a vazar água. E por um bom tempo aguentamos, eu, ele e uma garrafa pet. Cansei e levei o carro ao mecânico. Como sempre, reclamei do preço. Bastante. E o carro ficaria pronto na 2a. Mas, recebi um telefonema: "pode buscar o carro na 3a? Não ficou pronto ainda." Ok.

E fui buscar o veículo. Quando cheguei a oficina tive a surpresa: ele estava brilhando! Nada como uma lavagem... Mas não era só isso. O mecãnico disse:

- Olha só, você reclama tanto do preço que resolvi arrumar todo o carro para você. Vê se cuida dele agora.
- Hein? Todo? - e eu olhava para o carro catatônica. ISSO NÃO ERA POSSÍVEL. Ele estava lindinho, parecia novo. Continuei. - Mas como?
- Ta bom, não gosto de mentir. Aconteceu o seguinte: o menino subiu na escada e caiu em cima do carro e quebrou o parabrisa. Eu troquei o vidro e resolvi arrumar o carro todo.

Fiquei sem palavras. Viram? Só comigo mesmo para ter o azar do ajudante da oficina cair em cima do carro. Tanto azar que virou sorte e meu carro ficou novo.

Agora, eu já troquei o aquário tantas vezes que é azar em quantidade imensurável. Quando será que essa história vai virar sorte?

PS: para aqueles que se preocuparam com o garoto despencante, ele não se machucou em nada. Está bem, esperando a vez dele da sorte virar...

segunda-feira, 23 de março de 2009

Ainda 09

Pois é, 2009 já está a todo vapor. E eu até consegui colocar algumas coisas no lugar. Mas o aquário continua lá, abandonado.

Agora faço Ioga. E acupuntura. Mas o aquário continua lá.

Hoje fiz até promessa, dessas pra São Longuinho. Mas o aquário continua lá.

E cada dia que passa, ele não sai do lugar.

Acho que preciso de ajuda.